
Tecnologia II
Novatium e Rajesh Jain na capa da Newsweek
Lá em 2003, no meio de tudo-ao-mesmo-tempo que estava roland - MetaReciclagem tomando forma, experimentação toda semana no galpão, idéias brotando de tudo que é lado, eu comecei a conversar, primeiro por email e depois por telefone, com um indiano chamado Rajesh Jain. Conheci ele através do Emergic.org, blog sobre tecnologia, inovação e soluções de computação para países "em desenvolvimento". À época, ele escrevia bastante sobre a idéia de um computador de 100 dólares (antes desse corre todo do Mit), sobre redes TC-TS (iniciais em inglês pra "terminal leve - servidor parrudo"), sobre como o computador deveria ser visto como somente mais um eletrodoméstico, e um monte de outras idéias interessantes. Ele mantinha o hábito de blogar todo dia, várias vezes por dia. Ultimamente, achei difícil acompanhar o blog dele justamente por isso - lotava meu agregador de posts - e deixei um pouco de lado.
Mas voltando a 2003, a gente conversou bastante sobre tentar trazer pro Brasil algumas das coisas que ele andava fazendo com a sua Netcore: soluções de terminais leves pra usar computadores velhos. Nunca deu muito certo, mas só em saber que era viável flexibilizar daquela maneira o sistema operacional foi uma inspiração forte pra alguns dos nossos primeiros projetos, como os Autolabs e o CyberSocial. Serviu como inspiração também em outro sentido: na época, pensamos seriamente em levantar uma grana pra comprar lotes de computadores usados, remanufaturá-los com o pessoal que freqüentava os esporos, e depois deixar a molecada vender as máquinas pra levantar uma graninha. Só que parecia meio viagem a gente oferecer máquinas sem nada de infralógica. Aí bateu de fazer um site onde as pessoas tivessem um primeiro contato com a tecnologia, e de quebra já pudessem se articular em rede, conversar umas com as outras, re-conhecer os seres humanos que estavam
Meta-evolução
A MetaReciclagem andou bastante desde que a gente a criou, lá no fim de 2002. De um pequeno grupo de pessoas querendo simplesmente captar doações de computadores e reaproveitá-los em projetos sociais, a coisa cresceu ao ponto de virar uma rede distribuída que toma corpo de diversas formas diferentes. Montamos laboratórios autônomos, desenvolvemos uma metodologia que pode ser replicada virtualmente em qualquer lugar, influenciamos projetos de governo e aprendemos pra caramba. Nesse tempo, eu me envolvi diretamente com um monte de coisas que não imaginaria, me empenhei bastante em convencer as pessoas a não só desenvolverem seus projetos de maneira autônoma, mas também usar as ferramentas online que, na base da administração tosca de servidores e com muita ajuda de amigxs, eu coloquei no ar: a lista de discussão, o wiki, os blogs, o scuttle e a galeria. Os ambientes estão lá, muitos ainda com temas padrão e pouco customizados, mas tão rolando.
Recentemente, um artigo sobre a MetaReciclagem escrito pelo Sergio Rosa no Overmundo, algumas situações complicadas em um ou outro projeto e a minha angústia de não conseguir mais dedicar tempo a ler, pensar e escrever, aliados à perspectiva de grandes transformações na minha vida para o próximo semestre, me fizeram tomar algumas decisões. Estou me afastando totalmente da manutenção do servidor da MetaReciclagem - deixei tudo nas mãos de um pessoal, co-ordenados pelo Liquuid, chamei mais gente pra moderar a lista, e vou ficar mais quietinho no canto. Isso é acima de tudo uma aposta no caráter emergente da MetaReciclagem - e uma intuição de que meus dois centavos na lista não são tão importantes quanto eu costumava pensar.
Vou em busca de um pouco de liberdade e de menos peso no que eu falo. Tipo aquele momento do pai soltar a bicicleta do filho e ver que ele, pô, já aprendeu a andar!
O artigo do Sergio me fez ver também que aquilo que a gente já conversou tantas vezes sobre re-mitificação já está tomando forma, de maneira muito mais profunda do que poderíamos imaginar. Mas esse assunto fica pra depois.
Tecnologia e Magia
Há mais ou menos um ano e meio, nas preparações pra primeira submidialogia, Pedro Ferreira mandou na lista de discussão a sintese de um texto de Alfred Gell chamado "Technology and Magic". Descolei o PDF e guardei-o no meu lotado diretório de textos Palê. Tentei ler algumas vezes, mas o texto em duas colunas é ruim de ler na tela. Foi só semana passada que consegui imprimir, na Casinha - que vai ser um post à parte outro dia por aqui.
A visão de Gell sobre tecnologia se aproxima bastante da perspectiva que eu tentei esboçar em umas apresentações que eu fiz ultimamente - a tecnologia vista de modo amplo, como sistemas que transformam um dado contexto. Gell sugere que a tecnologia envolve três esferas: as tecnologias de produção - o que geralmente é chamado de tecnologia; as tecnologias de reprodução (da própria sociedade e dos laços sociais), e as tecnologias de encantamento. Nessa última categoria ficariam as danças, a música, a arte, e outras responsáveis pela "manipulação das paixões humanas" como o desejo, o terror, vaidade e outras.
Mais adiante no texto, ele trata de magia. A síntese do Pedro (não sei se ele publicou em algum lugar) explica bem:
Na segunda parte do texto, dedicada à magia, Gell apresenta o feitiço como um "plano cognitivo" para a ação, e a magia como um fluxo contínuo de comentários sobre as ações técnicas que as divide, enquadra, define, guia, internaliza e exercita. Como numa brincadeira de criança, a magia vai além do real rumo ao ideal da ação e está ligada ao processo de inovação. Segundo Gell, o "papel cognitivo das idéias mágicas" é criar um "campo de orientação às atividades técnicas", sendo a inovação técnica o resultado não da satisfação de "necessidades" mas sim da realização de ideais técnicos até então considerados mágicos. Através de três exemplos etnográficos, Gell mostra que a magia é uma "tecnologia ideal" que parte da tecnologia real mas a supera indicando o caminho de sua evolução: "é a tecnologia que sustenta a magia, mesmo quando a magia inspira novos esforços técnicos".
A objetividade do texto me incomoda um pouco por conta da dissecação da "magia" como mero comentário. Mas esse é um incômodo da fé, não da razão. Ao colocar um papel quase utilitário na magia, o de definir padrões ideais posteriormente seguidos pela técnica, eu sinto uma certa perda do próprio significado da magia. Não que eu não concorde, mas me dá mais satisfação pessoal ignorar essa limitação de alcance, como um Sidarta decidindo por uma incursão pelo Samsara não como rejeição à iluminação, mas como busca por conhecimento. Prefiro a liberdade de escolher no que acredito. E tem outro lado - a magia também se presta, por outros caminhos, à formação de identidades, a estabeler laços sociais diferenciados.
De qualquer forma, a Wanderlynne me contou que esse texto é uma das referências básicas para chegar à compreensão que pode me levar um dia a ser aceito como aprendiz nos Círculos de Tecnomagia. Sigo aqui na minha busca.
Imagem de sylvar encontrada no Flickr com licença Creative Commons.
Caderno Submidiático #1 - Teoria, Cadê?
Terminei a edição do primeiro Caderno Submidiático, que cobre o primeiro painel - "Teoria, cadê?" na primeira conferência Submidialogia, que rolou em Campinas no fim de 2005. Cola lá pra baixar.
Hardware livre
Guima, relatando suas atividades no PEFI, mandou o link de um artigo no CMI: Hardware Livre. O artigo foi publicado em 2003, e parece ser uma tradução, mas não tem crédito. Apesar de algumas coisas meio datadas, levanta uma discussão interessante. Vou dar uma olhada no OpenCores. Nos comentários, mais uma boa referência: Ronja




